Mesada para crianças ganha nova forma: cartões ligados aos celulares dos pais

Publicado em: 18/12/2018

Não precisa mais se preocupar com sacar dinheiro para a mesada das crianças. Os pais agora podem escolher entre diversos cartões de débito pré-pagos que lhes oferecem supervisão digital sobre os hábitos de consumo e de poupança de seus filhos.

“Os pré-pagos realmente evoluíram”, disse Christina Tetreault, advogada na divisão de serviços financeiros da Consumer Union, uma organização de proteção ao consumidor nos Estados Unidos.

As mais recentes ofertas incluem cartões que vêm acompanhados por apps elegantes, de startups financeiras como a Greenlight, Current e goHenry. Ao contrário dos cartões de débito tradicionais, vinculados diretamente a contas correntes, esses novos modelos precisam ser carregados pelos pais com as quantias desejadas.

Os instrumentos digitais servem para resolver um problema cada vez mais comum: os pais nem sempre têm dinheiro em espécie em mãos. Assim, podem ser apanhados de surpresa quando um filho precisa de dinheiro para um passeio com amigos, para colocar gasolina no carro ou para pequenas compras. Com um app, os pais podem colocar dinheiro no cartão de débito de um filho com apenas alguns toques na tela de um celular.

Os detalhes variam de cartão a cartão, mas os pais tipicamente abrem uma conta, e depois a vinculam a uma conta corrente de banco ou cartão de débito, como forma de abastecer o cartão de um filho. Os pais podem dar cartões a diversos filhos, mesmo os muito novos. (A goHenry recomenda cartões para crianças a partir dos seis anos.)

Os pais também podem usar os apps para estabelecer transferências de mesadas, definir limites de gasto ou oferecer pagamento por tarefas, e para mais uma grande variedade de coisas. Os pais têm a possibilidade de receber mensagens de texto ou emails quando seus filhos fazem pagamentos. E podem acionar o app para desativar o cartão rapidamente se a criança vier a perdê-lo.

Ativistas no segmento das finanças pessoais dizem que, para além dos muitos recursos oferecidos, o principal benefício dos cartões pré-pagos “inteligentes”é que eles podem convencer os pais a conversar com seus filhos sobre dinheiro.

“Os cartões são uma excelente ferramenta para aprender como administrar dinheiro, se forem usados da maneira certa”, disse Will deHoo, fundador e diretor executivo da FoolProof Foundation, uma organização sem fins lucrativos que promove o “ceticismo saudável” quanto a produtos financeiros.

Isso significa aprender a respeitar o orçamento e a poupar, e não só gastar dinheiro, o que afinal é a principal função de um cartão de débito.

“Um cartão de débito nunca diz não a uma liquidação”, disse deHoo.

Os proponentes da ideia dizem que os cartões encorajam a poupança. O Greenlight permite que os pais façam depósitos casados em valores iguais aos que seus filhos transfiram a uma conta de poupança.

Os juros pagos sobre a poupança são baixos – 2% ao ano é considerado como uma taxa generosa -, o que torna difícil convencer os jovens sobre o benefício dos juros compostos. Mas os pais podem instruir o app a pagar às crianças os juros que eles determinarem – por exemplo, 20% ou até 100% -, como incentivo. (A conta do cartão não oferece remuneração pelo saldo depositado.)

O Greenlight também permite que os pais fiscalizem os gastos escolhendo o tipo de loja ou restaurante em que a criança pode fazer compras. O dinheiro do cartão é separado em duas categorias: para gasto em qualquer lugar e para gasto apenas em lojas e sites pré-aprovados. Se a criança tenta comprar alguma coisa em uma loja não aprovada, ou gastar mais dinheiro do que o saldo disponível no cartão, a transação é recusada.

Crianças que tenham celulares recebem sua versão do app, que permite que verifiquem saldos ou solicitem a permissão dos pais para comprar um item específico.

O Greenlight conta com empresas como a Amazon e dois grandes bancos entre seus investidores, e está disponível desde 2017. O app tem 200 mil usuários pagantes, disse Tim Sheehan, presidente-executivo da empresa. Na semana que vem, o cartão passará a contar com novos recursos, entre os quais a possibilidade de uso em caixas eletrônicos.

O Current, cujos investidores incluem uma divisão do Fifth Third Bank, permite que pais ofereçam aos filhos a oportunidade de ganhar dinheiro fazendo tarefas caseiras. Um exemplo: “Aparar a grama, US$ 10”.

Quando a tarefa está pronta, os fundos são liberados. Stuart Sopp, fundador e presidente-executivo do Current, contou que sua filha de nove anos tem um cartão, e costuma dizer que “quero mais tarefas”.

“É um recurso para os pais”, ele disse.

Os cartões podem representar uma experiência de aprendizado, desde que os pais não entrem em modo “helicóptero” e exagerem no controle, disse Bill Dwight, fundador do FamZoo, um programa familiar de finanças e orçamento que adicionou um cartão de débito ao seu cardápio alguns anos atrás.

A ideia é permitir que as crianças cometam erros em seus gastos, mas com algumas restrições para prevenir desastres, disse Dwight.

“Se você ralhar com a criança a cada transação”, ele disse, é provável que ela deixe de prestar atenção às broncas.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Fonte: Folha de São Paulo

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