Pessoa física se preocupa com a crise, mas passa longe da histeria

Publicado em: 18/03/2020

Fonte: Valor Investe, por Isabel Filgueiras, Júlia Lewgoy e Naiara Bertão

Foto: Freepik

A histeria do coronavírus parece não ter mexido tanto assim com os brios do investidor pessoa física de 2020, que andou estudando sobre investimentos depois da onda de corte de juros do ano passado. Talvez, se fosse um tempo atrás, a coisa toda estivesse ainda pior. Mas os esforços para disseminar lições de educação financeira dão a impressão de terem surtido algum efeito.

Não é de hoje que o investidor vive desafios. Nos últimos meses, teve de sair da comodidade de uma renda fixa que pagava juros altos para buscar novas formas de rentabilidade. Foi descobrindo o mundo de aplicações sofisticadas. Também passou a ter mais assessoria para lidar com o dinheiro.

De acordo com especialistas, a sacudida do mercado gerou, sim, muita apreensão. Mas o conhecimento sobre as aplicações, o acesso a informações e a profissionais limitou os estragos geralmente causados pelo pavor e por decisões impulsivas. O investidor amadureceu, relatam agentes autônomos, os assessores de investimentos de escritórios vinculados a corretoras.

E se a bolsa está caindo, a culpa não é do investidor pessoa física. Aliás, são justamente eles que mais estão apostando no mercado de ações neste momento de baixa, depois da queda de mais de 15% na semana passada.

O presidente do escritório de agentes autônomos Acqua Investimentos, Eduardo Siqueira, diz que existe uma preocupação muito maior com o que fazer do que com as perdas em si.

Entre as perguntas mais frequentes dos clientes estão:

Quando a bolsa deve se recuperar?

É o momento para entrar na bolsa? Devo comprar ações e ativos de risco?

Como proteger a carteira?

O que pode ser feito para aliviar os efeitos da crise?

“Já passei por algumas crises. Esta está sendo a menos traumática, por incrível que pareça, porque a educação financeira evoluiu. O trabalho educacional que a gente faz está dando frutos agora”, diz Siqueira. “Os clientes não têm exclusivamente só ações na carteira, então sofrem menos, e também entendem melhor sobre as aplicações. Eles sabem que pode ter rendimento negativo e o conhecimento ajuda a manter a calma.”

Segundo Siqueira, o alinhamento do perfil de risco e o trabalho de aconselhamento feito por consultores, planejadores financeiros, agentes autônomos e pelas plataformas de investimento deixam as pessoas menos suscetíveis aos ruídos da crise e à histeria da doença desconhecida. Sobe e desce já são esperados e cada vez menos o investidor espera que milagres aconteçam.

O que fazer com os investimentos?

É preciso saber que a volatilidade da renda variável e da renda fixa vai continuar forte no curto prazo. Por isso, ter sangue frio para esperar a tempestade passar e ter um portfólio diversificado é mais importante do que nunca.

A sócia e assessora de investimentos do escritório Blackbird, Sharon Halpern, diz que o momento é propício para entrar na bolsa.

“Para quem tem vontade de entrar em bolsa, tem que aproveitar esse momento que os preços estão super distorcidos. Empresas que valem muito estão sendo negociadas a um preço muito barato. Da mesma forma, não faz sentido vender agora porque, se fosse um apartamento, você não venderia se alguém falasse que iria pagar metade do preço”, aponta.

Uma alternativa para quem quer começar na bolsa é por meio dos fundos de ações, em que um gestor escolhe no que investir, no lugar dos investidores pessoas físicas. Sharon diz estar confiante que os gestores de fundos estejam fazendo a maior parte do trabalho de proteção e rebalanceamento de carteira.

Siqueira, da Acqua Investimentos vê oportunidade na crise, mas alerta que só devem embarcar nessa aventura aqueles que lidam bem com as oscilações típicas das turbulências.“ Os ativos estão mais baratos, voltaram ao preço de antes de 2017. Quem estava esperando oportunidade, achando que bolsa estava cara recebeu o desconto. Mas está volátil e o momento é de se adequar ao seu perfil. Não adianta o cliente conservador querer entrar na bolsa porque vai se frustrar. Crises como essa não respeitam gráfico. Por isso, você tem que respeitar seu perfil”, afirma ele.

Para Virgínia, da Critéria Investimentos, o verdadeiro “saldão” da renda variável deve ser aproveitado, mesmo que seja para depois voltar para uma carteira mais conservadora, quando o mercado recuperar os preços. “Se você já tem reserva de emergência e tem perfil de mais risco é bom para aumentar a exposição em renda variável. Ainda que depois, quando o mercado subir e chegar ao patamar anterior, você realoque para a composição da carteira antiga, com exposição menor em renda variável”, diz.

No caso dos fundos imobiliários, ela recomenda não mexer, porque eles costumam ser mais estáveis que outros ativos. De fato, o índice dos fundos imobiliários (Ifix) teve a maior queda histórica diária essa semana, de 6,57%, mas muito abaixo das perdas vista na bolsa no mesmo período.

O responsável pela mesa institucional de futuros da Genial Investimentos, Roberto Motta, afirma que é importante diversificar com os ativos de proteção, como ouro e dólar, mas nada deve ser feito por impulso.

Segundo ele, o dólar está alto no momento. Mas o ouro passa por um momento de vendas e é uma rara oportunidade de ter o metal na carteira por um preço razoável em momento de aversão ao risco, quando ele opera em alta. Os contratos da commodity para abril em Nova York fecharam em queda de mais de 9% na semana passada.

“As pessoas estão se movimentando, mas os clientes estão adequados ao perfil de risco. Os clientes que estão expostos em bolsa sabem o que está acontecendo porque os agentes autônomos estão próximos e isso ajuda a manter a serenidade”, completa.

Ele relata ainda que a procura dos clientes por ajuda não diminuiu. Pelo contrário, o número de ligações dobrou e os dias de trabalho estão mais longos, afinal, as pessoas tendem a questionar o que está acontecendo e o que devem fazer. Mas sempre com a frieza de saber que oscilações existem e que o momento não é para pânico.

“O que está acontecendo agora é histórico. Quatro ‘circuit breakers’ em uma semana foi bem puxado. Mas não tivemos nenhum cliente que quis vender tudo”, conta a sócia do escritório focado em mulheres Ella’s Investimentos, Carolina Barros. As quatro sócias do escritório passaram a semana passada inteira ligando para as 700 clientes para explicar o que estava acontecendo no mercado e perguntar se as investidoras desejavam fazer alguma mudança nas suas aplicações financeiras. “Estamos aproveitando a oportunidade para educar clientes e sentimos que elas estão mais tranquilas”, relata Carolina.

A planejadora financeira, sócia da Critéria Investimentos e professora de Finanças da Faap, Virginia Prestes, conta que a maioria dos clientes que entrou em bolsa está tranquila porque tem uma expectativa de retornos a médio e longo prazos. Por isso, apesar do chacoalhão momentâneo, eles têm optado por continuar na renda variável.

“Os clientes estão todos muito preocupados com a dimensão da queda. Muitos são novos de bolsa. Entrou 1 milhão de pessoas físicas nos últimos três anos. A magnitude e rapidez da queda assustou.Tenho 15 anos de carreira e nunca vi uma crise tão aguda. Mas, está tendo muito aporte. Eu mesma não tive nenhum cliente que resgatou ou quis sair, mas tive clientes que quiseram aportar”, diz Virgínia.

“Investidores do mundo inteiro que tinham posições em ouro tiveram que vender para mitigar prejuízos em outras caixinhas. O ouro é um ótimo ativo, todos devem olhar como parte do portfólio. Mas o dólar a R$ 4,85 já é esticado”, afirma.

Se o cenário antes da crise já estava favorável, com juros mais baixos da história e inflação controlada, o caos do coronavírus serviu para baixar o preço de entrada na renda variável, defende Gustavo Bertotti, responsável pela área de renda variável da Messem Investimentos.

“Hoje a palavra é cautela e frieza. Respeitando sempre o perfil do investidor. Ele pode optar por Tesouro IPCA+, títulos que a médio e longo prazos fazem sentido nas carteiras, com a queda do CDI. E também contratos de ouro ou opções. Mas vai muito do perfil do investidor”, aponta.

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