Por que a variante delta do coronavírus preocupa tanto o mercado financeiro?

Publicado em: 27/07/2021

Fonte: Folha do Povo, por Cristina Seciuk

Foto: Folha do Povo/ Jorge Araújo/Fotos Públicas

Desde o início de julho a moeda norte-americana se aproxima dos 6% de valorização; em pouco menos de um mês, o dólar passou dos R$ 4,90 para R$ 5,25. Já o Ibovespa, principal índice da B3, caiu mais de 3% nos últimos 30 dias. Essas oscilações no mercado financeiro atendem, mais uma vez, pelo nome de coronavírus. O fator chave no momento é o avanço da variante delta, mais transmissível que cepas descobertas anteriormente e que vem fazendo aumentar casos na Europa e nos EUA.

Segundo a economista da Coface para a América Latina, Patrícia Krause, a preocupação é com o risco de freio na retomada e de desaceleração do crescimento da economia mundial – principalmente no setor de serviços, que tem peso importante e emprega muito, mas depende da contenção da pandemia para se recuperar. Junto do fantasma de uma nova onda da Covid-19 (e novas restrições de circulação), Krause avalia que também acontece agora um movimento de correção e de realização de lucros dos investidores que aumentaram a exposição ao risco.

“A gente já teve uma grande melhora no mercado nos últimos meses, já vinha uma recuperação da bolsa mundo afora, um cenário bem otimista, então é uma correção”, afirma, ao afastar a percepção de piora na tendência ou de quedas adiante.

A desvalorização ante ao dólar, vale destacar, não foi exclusividade do real. Moedas como euro, libra e iene também tiveram desvalorizações sensíveis nos últimos dias como reação à preocupação com a continuidade da recuperação econômica em meio a um eventual recrudescimento da pandemia. “Não é alguma questão estrutural devido ao país nesse momento, é um medo que está rondando o mercado”, resume o estrategista da Ativa Investimentos, Luiz Fernando Carvalho.

Segundo Carvalho, o momento é de volatilidade, exige paciência, mas ainda não demonstra ser um movimento de longo prazo, e sim uma reação mais imediata. “Os bancos centrais já falaram que vão continuar com os estímulos normais, não existe tanta preocupação. Com a imunização progredindo esse movimento tende a se recuperar”, completa.

Dólar volta aos R$ 5?

A economista da Coface avalia que, superada essa fase de oscilação por causa do receio da variante delta, é “factível” que o dólar retorne ao patamar em que estava no começo do mês, acomodado pela política monetária brasileira e por avanços na vacinação local, com expectativa de população adulta imunizada ao menos com a primeira dose no final de setembro.

“Com o cenário doméstico melhor e a continuidade da política monetária (de alta da Selic, que tudo leva a crer continuará nos próximos meses) isso deveria ajudar um pouco o real, que foi uma das moedas mais impactadas desde o começo da Covid”, acrescenta Paula Krause.

Para Carvalho, a volta a um cenário de dólar a R$ 5 depende também de mudanças que o suportem de forma consistente. “Tem que ter a reforma tributária, administrativa, tem que ter uma estabilidade maior de previsão da economia, de recuperação. É possível, mas, no momento, eu acho que ele pode ficar oscilando nesse intervalo em que está, num ponto de acumulação”, pondera.

A avaliação do estrategista macro da XP Investimentos, Victor Scalet, é de que também há fatores para a apreciação do real, com destaque para o fato de que as commodities exportadas pelo país continuam muito fortes. Em caso de avanços em pautas esperadas no país, o câmbio poderia ter cenário ainda melhor.

“A gente está caminhando mais com fatores externos [no caso atual, de preocupação com a variante delta] do que locais nesse momento, ainda que, claro, não dê para dizer que não tem nenhum efeito local participando. Se estivéssemos discutindo reformas estruturantes, reforma administrativa, uma reforma tributária que fosse reduzir a complexidade, que não tivesse risco fiscal, poderíamos estar falando de um câmbio mais apreciado”, avalia.

 

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