Vacinação, reabertura e o campo minado do consumo

Publicado em: 27/07/2021

Fonte: Valor Investe, por Aquiles Mosca

Foto: Valor Investe/ Divulgação

Os últimos 14 meses foram de privação e restrições. Certamente, os próximos não serão muito diferentes, ao menos até que a vacinação torne-se mais abrangente, o que deve ocorrer entre o final do terceiro e o início do quarto trimestre no Brasil.

Do ponto de vista de finanças pessoais, os últimos tempos foram de grande aprendizado para todos, principalmente à luz do fato de que 62% dos brasileiros entrou na pandemia sem ter um real sequer poupado para fazer frente a um período de emergência, segundo dados da pesquisa raio x do investidor da Anbima. Será que o hábito de ser previdente, controlar gastos e poupar para o futuro resultará do trauma recente representado pela pandemia?

Se observarmos o comportamento em alguns países que, após aproximarem-se de 60% da população vacinada, começaram a relaxar as medidas de restrição e reabriram suas economias, há razão para ficarmos com a barba de molho. Um fator determinante do nosso comportamento financeiro depende de onde estamos no espectro do chamado estado frio ou quente. Já sentiu muita fome, sede, medo ou exaustão? Estes são estados quentes, onde as emoções tomam o controle sobre nossas atitudes.

As restrições vivenciadas nos últimos meses são como a pressão dentro de uma panela e, no momento em que tampa for aberta, uma quantidade enorme de pressão em alta temperatura será liberada. Exatamente o mesmo ocorrerá com as pessoas no momento em que as restrições forem relaxadas. Entraremos em um estado quente em massa e ao mesmo tempo. A questão é que estados quentes exacerbam nossos vieses comportamentais, e a maioria deles é prejudicial à boa gestão financeira.

Conforme a economia comece a reabrir, é natural que sejamos tomados por um tsunami de desejos que até então estiveram reprimidos. Viajar, sair para jantar em um bom restaurante, ir a um show ou teatro etc. O risco para os orçamentos pessoais e familiares não pode ser ignorado, uma vez que o tal estado quente acentua o viés presente, que nos faz valorizar mais o aqui e agora em detrimento do futuro.

Talvez você esteja no grupo de pessoas que se considera racional demais para cair nesse erro. Saiba que esse é o chamado viés de restrição, segundo o qual sobrestimamos nossa capacidade de resistir ao comportamento impulsivo. Ou talvez você ache que após todos esses meses usando máscaras e evitando contato, você merece extravasar agora com um pouco de gastos acima do usual. Se esse é seu caso, você caiu no viés do licenciamento moral, que atua como aquele diabinho no ombro esquerdo convencendo-o de que não há problema de pecar só um pouquinho.

Todos estaremos sujeitos também ao efeito manada. Afinal, nossos amigos, parentes e conhecidos estarão no mesmo movimento de libertação e autoindulgência com diferentes tipos de atividades e consumos. As mídias sociais serão tomadas por fotos de pessoas viajando, passeando, e curtindo a vida das mais variadas formas, e não há nada de errado com isso.

Queremos fazer parte de tudo isso. É natural que tenhamos tais desejos após a experiência pela qual passamos. A questão é como administrar essa montanha de sentimentos e vieses que potencialmente podem colocar a situação financeira de qualquer um em perigo.

Tenderemos também a pagar mais pelos mesmos bens e serviços que consumíamos antes. Nesse aspecto, o viés da disponibilidade atuará de forma decisiva. Segundo esse viés, temos a ilusão de que quanto mais observamos algo, maior a probabilidade de que ocorra, e quanto menos o vemos, mais escasso ele é. O problema é que o cérebro humano relaciona escassez a valor.

Quanto mais escasso, mais valioso. Isso ocorre exatamente em um momento onde nosso senso de disponibilidade foi fortemente alterado. Muitas das coisas e experiências que estávamos acostumados a desfrutar, das mais simples às mais refinadas, de repente tornaram-se escassas pelas restrições impostas pela pandemia, potencialmente elevando o valor estimado das mesmas em nossas mentes. Esse é um campo rico para incrementos e abusos de preços.

Para sobreviver a esse campo minado de vieses comportamentais será necessário muita humildade, começando por reconhecer que estamos vulneráveis à essas tendências. Saber identificá-las e administrá-las, sem privar-se do merecido alívio e prazer que uma reabertura consciente e responsável da economia deve trazer, será mais uma arte que uma ciência.

Aquiles Mosca é responsável por comercial, marketing & digital no BNP Paribas Asset Management e preside o Grupo Consultivo de Educação de Investidores da Anbima

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